Autor: Sabrina Sasso Nobre
Últimos posts por Autor: Sabrina Sasso Nobre (exibir todos)

A dissociação é um fenômeno psicopatológico que envolve uma descontinuidade nas funções normais da consciência, memória, identidade, emoções e percepção, levando a uma desconexão temporária da própria experiência ou da realidade. Pode se manifestar em diferentes graus, desde lapsos de memória até alterações mais complexas da identidade, incluindo quadros como amnésia dissociativa, despersonalização e desrealização. Em níveis mais intensos, a pessoa pode ter dificuldade em distinguir o que é real. Trata-se de um mecanismo de defesa psicológico, que também apresenta correlações neurobiológicas, e que, quando clinicamente significativo, pode estar associado aos chamados transtornos dissociativos.

Já a despersonalização é um fenômeno caracterizado por um distanciamento persistente ou recorrente em relação a si mesmo, envolvendo sensações de estranhamento sobre o próprio corpo, pensamentos, emoções ou identidade. A pessoa pode sentir como se estivesse se observando de fora, funcionando no “piloto automático” ou com uma sensação de vazio. Quando ocorre de forma isolada e com prejuízo clínico significativo, é classificada como Transtorno de Despersonalização/Desrealização, podendo ou não estar acompanhada de desrealização, que se refere à percepção de irrealidade do ambiente.

As semelhanças da dissociação e desrealização envolvem: fenômeno experiencial (ambos envolvem alterações na experiência subjetiva da consciência e da identidade); associação com estresse/trauma (tanto dissociação quanto despersonalização são frequentemente desencadeadas ou exacerbadas por trauma, estresse agudo, privação do sono, intoxicações ou transtornos psiquiátricos); sobreposição nos instrumentos (medidas clínicas capturam tanto fenômenos de despersonalização/desrealização quanto outros sintomas dissociativos, mostrando correlações entre essas manifestações).

A despersonalização é um fenômeno específico, relacionado à alteração da experiência de si, enquanto a dissociação é um conceito mais amplo que inclui esse e outros quadros, como amnésia e alterações de identidade. Em termos clínicos, transtornos dissociativos mais complexos costumam envolver maior fragmentação da memória e identidade, com impacto funcional mais intenso, enquanto no Transtorno de Despersonalização/Desrealização geralmente há sofrimento, mas com preservação do insight. Do ponto de vista neurobiológico, a despersonalização está associada a um padrão de “desligamento emocional”, com menor reatividade límbica e maior controle pré-frontal, enquanto a dissociação em geral apresenta alterações mais variadas na integração entre memória, emoção e identidade, especialmente em quadros mais graves.

Embora haja sobreposição terapêutica (psicoterapias baseadas em trauma, psicoeducação, técnicas de grounding), abordagens são adaptadas: TPD responde a intervenções que visam restaurar integração emocional e regulação (terapia cognitivo‑comportamental adaptada, terapia de exposição modulada, alguns estudos com neuromodulação). Transtornos dissociativos complexos requerem intervenções longitudinais focadas em estabilização, processamento traumático e integração de memória/identidade.

Na avaliação neuropsicológica, é fundamental diferenciar os tipos de experiência dissociativa, investigando história de trauma, características dos sintomas (como amnésia vs. sensação de distanciamento de si), nível de insight, prejuízo funcional e comorbidades. Podem ser utilizados instrumentos como a Dissociative Experiences Scale para triagem e entrevistas estruturadas, como a SCID-D, além de critérios diagnósticos do DSM-5/ICD-11.

A despersonalização é uma forma específica de dissociação centrada no desapego de si, enquanto a dissociação é um conceito mais amplo. Embora haja sobreposição clínica e neurobiológica, a despersonalização costuma estar associada a um padrão de “desligamento emocional”, enquanto formas mais complexas de dissociação envolvem alterações na integração entre memória e identidade. Por isso, uma avaliação cuidadosa e um manejo terapêutico adaptado ao perfil sintomático são essenciais.

REFERÊNCIAS

Drauzio Varella. Parece que estou dentro de um filme: o que é o transtorno de despersonalização/desrealização? Recuperado de: https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/parece-que-estou-dentro-de-um-filme-o-que-e-o-transtorno-de-despersonalizacao-desrealizacao/

Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS). O que é dissociação? Recuperado de: https://www.posuscs.com.br/o-que-e-dissociacao/noticia/2407