Autor: Sabrina Sasso Nobre

O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica caracterizada por oscilações acentuadas de humor que variam entre episódios de mania, hipomania e depressão. Contudo, para além das alterações afetivas, um aspecto frequentemente negligenciado (mas com implicações clínicas significativas) se refere ao comprometimento das funções cognitivas em diversos domínios. Estudos em neuropsicologia e neurociência têm demonstrado que déficits cognitivos podem ocorrer não apenas durante os episódios de desregulação do humor, mas também em períodos de estabilidade, conhecidos como estados eutímicos.

Indivíduos com transtorno bipolar costumam apresentar dificuldades de atenção, como manter o foco por muito tempo, filtrar distrações, inibir o impulso ou lidar com várias tarefas ao mesmo tempo. Essas dificuldades são mais intensas durante as fases de mania ou depressão, mas podem continuar, mesmo que de forma mais leve, fora dos episódios. Assim, é possível dizer que as alterações cognitivas no transtorno bipolar estão bem acentuadas principalmente durante as fases agudas.

No transtorno bipolar, além das dificuldades de atenção, diversos aspectos da memória também podem ser comprometidos. A memória de trabalho (responsável por manter e manipular informações temporárias) costuma estar prejudicada, assim como, a memória episódica (especialmente na recuperação de informações verbais e visuais) e a memória prospectiva (relacionada à lembrança de realizar ações futuras). Durante episódios depressivos, pacientes bipolares tendem a apresentar mais dificuldades em funções executivas do que pacientes com depressão unipolar. Já nos episódios de mania, observa-se prejuízo no controle inibitório, no processamento visuoespacial e na fluência verbal. Os déficits cognitivos podem variar conforme a fase do transtorno e recursos de cada individuo, mas podem persistir (em menor grau) mesmo fora dos episódios agudos.

As funções executivas, mediadas pelo córtex pré-frontal, figuram entre os domínios mais comprometidos. Indivíduos com transtorno bipolar frequentemente demonstram déficits em planejamento, organização, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e tomada de decisões — especialmente em situações que envolvem risco ou ambiguidade. Esses prejuízos podem contribuir para comportamentos impulsivos, dificuldades na resolução de problemas e disfunções no cotidiano.

Outro domínio frequentemente afetado é a velocidade de processamento, observa-se que pessoas com transtorno bipolar tendem a processar informações com maior lentidão, o que pode impactar negativamente o desempenho em tarefas que exigem respostas rápidas ou integração de múltiplas fontes de informação.

A habilidade de interpretar e responder adequadamente aos estados mentais e emocionais de outras pessoas (cognição social), também pode ser comprometida. Déficits na teoria da mente e na percepção emocional dificultam as interações sociais e a empatia, prejudicando a qualidade das relações interpessoais.

As disfunções cognitivas observadas no transtorno bipolar estão associadas a alterações em circuitos cerebrais que envolvem o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo — regiões fundamentais para a regulação emocional, memória e controle executivo. Além disso, desequilíbrios neuroquímicos envolvendo neurotransmissores como dopamina, serotonina e glutamato também podem contribuir para os déficits observados.

É importante reconhecer que esses prejuízos cognitivos podem permanecer mesmo quando os sintomas afetivos estão regulados. A gravidade dos déficits pode variar de acordo com o subtipo do transtorno (bipolar tipo I ou II), número de episódios, comorbidades clínicas e psiquiátricas subjacentes, aparato cognitivo de cada individuo, além do uso crônico de psicofármacos.

Diferentes abordagens terapêuticas, incluindo intervenções de reabilitação neuropsicológica e estratégias farmacológicas, vêm sendo estudadas com o objetivo de minimizar os impactos cognitivos do transtorno bipolar, promovendo maior funcionalidade e qualidade de vida. É importante compreender que a vida social, familiar e ocupacional dos pacientes pode ser comprometida não apenas pelos sintomas do transtorno, mas também pelas dificuldades cognitivas associadas. Por isso, é fundamental que esses aspectos sejam considerados em uma abordagem terapêutica mais ampla e integrada.

Referencia:

Rocca, C. C. A., & Lafer, B.. (2006). Alterações neuropsicológicas no transtorno bipolar. Brazilian Journal of Psychiatry, 28(3), 226–237. https://doi.org/10.1590/S1516-44462006000300016