Autor: Sabrina Sasso Nobre

 

Habituação é um processo psicológico básico e essencial para a nossa adaptação ao ambiente. Trata-se de uma forma de aprendizagem em que a resposta a um estímulo diminui com a exposição repetida a ele, desde que esse estímulo não traga consequências importantes nem represente ameaça. Em outras palavras, é quando o cérebro aprende a ignorar aquilo que é repetitivo e irrelevante, como o som constante de um ventilador ou o barulho do trânsito ao fundo. Isso acontece para que possamos economizar energia mental e direcionar nossa atenção para o que realmente importa (como mudanças no ambiente ou informações novas). A habituação é estudada tanto em seres humanos quanto em animais, pois ajuda a entender como ajustamos nosso comportamento conforme nos acostumamos com o mundo ao redor.

Em organismos simples como o aplysia (lesmas do mar) por exemplo, a habituação do reflexo de retração da brânquia está bem documentada, incluindo alterações na liberação de neurotransmissores e potenciais sinápticos. Em mamíferos, canais como o BK (potássio dependente de cálcio) foram implicados nos mecanismos de habituação de curto e longo prazo em reflexos acústicos.

Em mamíferos superiores, habituação também reflete filtragem sensorial e adaptação neural em níveis hierárquicos do processamento – desde o tronco até o córtex superior. Diversos estudos demonstram que, ante estímulos repetidos, a atividade em estruturas como amígdala, hipocampo e córtex temporal inferior diminui ao longo do tempo, fenômeno conhecido como “repetition suppression” ou habituação neural.

A habituação é um mecanismo essencial que permite ao cérebro filtrar estímulos repetitivos e irrelevantes, prevenindo a sobrecarga sensorial e facilitando a concentração em informações realmente importantes. Quando esse processo falha ou está alterado, como pode acontecer em transtornos como autismo, TDAH, esquizofrenia e enxaqueca, o indivíduo tende a ser mais sensível a estímulos do ambiente, tendo dificuldade em ignorar sons, luzes ou sensações repetidas. Isso pode gerar desconforto e dificultar a adaptação a ambientes cotidianos.

Um exemplo simples de habituação é quando deixamos de perceber o som constante de um ventilador ou o barulho do trânsito depois de um tempo. Outro exemplo ocorre durante as refeições: à medida que repetimos o mesmo sabor, a motivação para continuar comendo diminui, contribuindo para a saciedade. Em resumo, a habituação é um processo adaptativo natural, presente em humanos e animais, que envolve alterações nos circuitos cerebrais para reduzir a resposta a estímulos que não oferecem riscos ou recompensas.

Referências

Sato, Takechi. (1995). Habituação e sensibilização comportamental. Psicologia USP, 6(1), 231-276. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1678-51771995000100011&lng=pt&tlng=pt.

Matos, J. (n.d.). O que é habituação: conceito na psicologia. Joice Matos. https://joicematos.com/glossario/o-que-e-habituacao-conceito-na-psicologia/#:~:text=Exemplos%20de%20habitua%C3%A7%C3%A3o%20no%20cotidiano,percep%C3%A7%C3%A3o%20do%20aroma%20diminui%20significativamente.