Autor: Sabrina Sasso Nobre

As memórias intrusivas (também chamadas de memórias involuntárias) são recordações vívidas e recorrentes de eventos passados que invadem a consciência de forma espontânea e indesejada. Segundo o artigo de Highfield, Lyadurai e Holmes (2025), essas memórias são tipicamente emocionais, sensoriais e, sobretudo, visuais, manifestando-se como “breves cenas” de momentos marcantes dentro de um evento mais amplo. A característica central da memória intrusiva é a sua natureza involuntária e a dificuldade em controlar a sua ocorrência. Frequentemente associadas ao Transtorno de Estresse Pós-Traumático, elas representam uma característica clínica central tanto do transtorno de estresse agudo, quanto do TEPT de longo prazo.

Embora essas memórias sejam mais comuns logo após o trauma, para algumas pessoas elas diminuem ao longo do tempo, enquanto para outras estão associadas ao desenvolvimento de TEPT meses ou até um ano depois. Estudos mostram que “pensamentos recorrentes do trauma”, que englobam as MIs, estão entre os sintomas centrais ligados ao TEPT. Entretanto, elas não se restringem a esse diagnóstico: podem ocorrer também em depressão, luto (particularmente no luto complexo) e até em alguns quadros de ansiedade, que caracteriza como um sintoma transdiagnóstico.

Como a ICTI pode ajudar? A Intervenção da Tarefa de Competição de Imagens (ICTI) se baseia na premissa de que as memórias intrusivas exploram os recursos visuoespaciais do cérebro. Ao envolver o indivíduo em tarefas que também demandem esses recursos, a ICTI compete com o processamento da memória traumática, interferindo na sua consolidação (se aplicada logo após o evento) ou reconsolidação (se aplicada a memórias já estabelecidas). Exemplo: Prevenção de TEPT após cesariana de emergência: Uma mulher que passou por uma cesariana de emergência e começa a ter flashes da tela do monitor cardíaco indicando sofrimento fetal pode ser orientada a jogar Tetris por 15-20 minutos nas primeiras horas após o parto. O Tetris exige atenção visual e espacial, competindo com a formação de memórias intrusivas.

O artigo de Highfield, Lyadurai e Holmes (2025) enfatiza que a ICTI é uma intervenção breve, flexível e de baixo custo. A ICTI não é vista como substituta para as psicoterapias focadas no trauma, mas sim como uma ferramenta complementar para reduzir o sofrimento causado pelas memórias intrusivas.

Em resumo, a ICTI não elimina as memórias traumáticas, mas torna-as menos intrusivas e disruptivas, ela oferece uma abordagem promissora e acessível para o manejo das memórias intrusivas, um sintoma comum em diversos transtornos mentais, com potencial para melhorar o bem-estar e a qualidade de vida de indivíduos expostos a eventos traumáticos.

Referência

Highfield, J., Lyadurai, L., & Holmes, E. A. (2025). A summary review of the development of using a brief imagery-competing task intervention (ICTI) for reducing intrusive memories of psychological trauma: applications in healthcare settings for both staff and patients. Discover Mental Health, 5 (78). [https://doi.org/10.1007/s44192-025-00205-6](https://doi.org/10.1007/s44192-025-00205-6)