Autor: Sabrina Sasso Nobre

Você já observou que em seu entorno sempre há alguém com os olhos fixos na tela do celular? Já se perguntou qual o custo de uma vida com tanta distração? Qual o impacto no seu funcionamento cognitivo e emocional?

Nos últimos anos, as opções de estímulos têm aumentado, estamos vivenciando um fluxo constante de estímulos provenientes da sociedade contemporânea, potencializados pelas tecnologias digitais. Estes estímulos nos colocam em um estado de alerta constante, prestamos atenção na mensagem que chega, no e-mail, na notícia, no que está acontecendo nas redes sociais etc. E, muitas vezes, esquecemos de olhar para o nosso entorno e nos conectar com o agora.

Estudos indicam que a multitarefa digital, especialmente mediada por smartphones e mídias sociais, está associada à fragmentação da atenção e à redução do foco sustentado, fenômeno frequentemente descrito como fadiga atencional. A alternância constante entre estímulos, impulsionada por notificações e fluxos contínuos de informação, sobrecarrega os sistemas atencionais.

A atenção envolve processos de atração, manutenção e mudança do foco, que são sensíveis a elementos ambientais, logo, em contextos digitais altamente estimulantes, a competição por recursos atencionais dificulta o processo atencional. Outros domínios cognitivos também sofrem impactos significativos o uso excessivo está associado a prejuízos na memória, maior dependência de armazenamento externo de informações e redução do controle inibitório. Por outro lado, a tecnologia, quando utilizada de uma forma dirigida e adequada, também colabora para a construção de reserva cognitiva: ferramentas digitais podem favorecer metacognição, aprendizagem autorregulada e, em alguns casos, neuroplasticidade por meio de treinamentos estruturados, como videogames.

A atenção fragmentada afeta a qualidade das interações sociais, comprometendo a vinculação com o agora, a escuta e a construção de vínculos mais profundos. Assim, compreender o funcionamento atencional na contemporaneidade exige uma abordagem integrada, que considere simultaneamente os mecanismos neurocognitivos, os hábitos digitais e o contexto social, com implicações diretas para intervenções clínicas que promovam não apenas foco, mas também autorregulação e engajamento relacional.

Nesse contexto volátil, as relações interativas mudaram profundamente, se tornando “vaporosas” (Francesco Morace). Essa transformação sugere que as conexões sociais se tornaram menos duradouras e mais efêmeras, o que pode impactar a forma como a atenção é distribuída nas interações sociais. Quando as relações são instáveis, a atenção das pessoas pode ser fragmentada, dificultando a construção de vínculos profundos e significativos.

Como profissionais da saúde é fundamental considerar essas dinâmicas ao abordar as dificuldades atencionais dos indivíduos. Intervenções que buscam melhorar o foco devem levar em conta não apenas os fatores cognitivos, mas também o contexto social e emocional dos pacientes. A compreensão das mudanças nas interações sociais pode oferecer novas perspectivas para desenvolver estratégias psicoterapêuticas que ajudem na reestruturação do funcionamento atencional.

Em suma, o efeito dos estímulos sociais no funcionamento atencional revela uma complexidade que exige uma abordagem integrada.

Referência:

Tsegaye Kassa, S. Benefícios e riscos cognitivos do envolvimento com a tecnologia digital. Discov Psychol 6 , 10 (2026). https://doi.org/10.1007/s44202-025-00527-0