Autor: Sabrina Sasso Nobre

A profundidade do sono não é igual para todas as pessoas. Enquanto algumas conseguem dormir profundamente, mesmo em ambientes com barulho e luz, outras acordam com qualquer ruído, por menor que seja. Essa diferença tem uma explicação biológica e está diretamente relacionada ao funcionamento do cérebro e aos mecanismos que regulam o sono.

Nosso sono é organizado em ciclos que se repetem várias vezes durante a noite. Cada ciclo dura, em média, 90 minutos e é composto por duas grandes fases: o sono não REM e o sono REM. O sono não REM é dividido em três estágios. O primeiro, chamado de N1, corresponde ao início do sono, aquele momento de sonolência. O segundo, N2, é um sono leve, no qual ainda é fácil acordar. Já o terceiro estágio, N3, é o chamado sono profundo, também conhecido como sono de ondas lentas. É nessa fase que o corpo realmente descansa e se recupera. Após essas etapas, vem o sono REM, caracterizado por intensa atividade cerebral, sonhos vívidos e relaxamento completo da musculatura.

A profundidade do sono, especialmente na fase N3, está diretamente ligada à quantidade de ondas lentas que o cérebro produz. Quando há uma grande quantidade dessas ondas, o cérebro se “desliga” do ambiente externo, favorecendo um sono pesado e restaurador. Por outro lado, quando há menos ondas lentas e mais atividade elétrica rápida, o sono tende a ser mais superficial, como se a pessoa permanecesse em estado de alerta, mesmo dormindo.

Diversos fatores podem influenciar a qualidade e a profundidade do sono. Questões emocionais, como ansiedade, estresse e depressão, podem levar a um sono mais leve e fragmentado. Da mesma forma, distúrbios do sono, como apneia, insônia e problemas respiratórios, também impactam diretamente na capacidade de alcançar as fases mais profundas do sono. Além disso, hábitos inadequados, como o consumo excessivo de cafeína, álcool, uso de telas antes de dormir e uma rotina desregulada, contribuem para a dificuldade em manter um sono restaurador. Fatores genéticos também desempenham um papel importante, já que determinados genes estão envolvidos tanto na organização do ciclo sono-vigília quanto na regulação dos neurônios responsáveis pela indução do sono profundo.

A alteração na arquitetura do sono também apresenta uma ligação importante com determinados transtornos mentais, em transtornos de ansiedade por exemplo, o cérebro apresenta um estado de maior alerta, dificultando tanto o início quanto a manutenção de um sono profundo. Na depressão, é comum a alteração no período de sono REM — ele passa a aparecer mais cedo do que o normal — e uma diminuição do sono de ondas lentas.

Em pessoas com transtorno bipolar, o ciclo de sono também se torna instável. Durante a mania, o paciente apresenta pouca necessidade de repouso, enquanto na depressão ele pode dormir demais ou ter um sono de má qualidade. Na esquizofrenia, a organização das fases do sono também está alterada, sendo particularmente comprometida a quantidade de sono profundo e de ondas lenta.

A profundidade e a qualidade do sono resultam de um equilíbrio entre fatores genéticos, funcionamento cerebral, estilo de vida e condições de saúde física e mental. Quando esse equilíbrio é alterado, seja por transtornos do sono, problemas emocionais ou hábitos inadequados, há um impacto direto na capacidade do corpo e do cérebro se recuperarem, o que pode favorecer o desenvolvimento de diversas doenças. A fragmentação do sono, especialmente, está associada a cansaço, dificuldade de concentração, irritabilidade e maior risco para transtornos como ansiedade e depressão. Por isso, adotar hábitos saudáveis, cuidar da saúde mental e buscar tratamento adequado quando necessário é fundamental, já que a qualidade do sono tem influência direta sobre o bem-estar, a saúde física e a saúde mental.

Referência

UOL VivaBem. (2023, setembro 27). Dorme como uma pena ou uma pedra? O que faz alguém ter sono leve ou pesado? UOL. https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2023/09/27/o-que-faz-alguem-ter-sono-leve-ou-pesado.htm