Autor: Sabrina Sasso Nobre

Em publicações anteriores neste perfil, já abordamos o conceito de reserva cognitiva, mas vale retomar e aprofundar essa ideia. A teoria da reserva cognitiva busca explicar por que algumas pessoas conseguem manter um bom funcionamento cognitivo mesmo diante de alterações cerebrais significativas, como aquelas observadas em doenças neurodegenerativas, especialmente a doença de Alzheimer. Segundo essa perspectiva, indivíduos com maior reserva cognitiva são capazes de tolerar uma maior carga de danos neuropatológicos sem manifestar déficits cognitivos importantes.

Essa capacidade protetiva é construída ao longo da vida e está associada a fatores como nível educacional, complexidade das atividades ocupacionais, engajamento em atividades intelectualmente estimulantes e vida social ativa. Essas experiências favorecem o desenvolvimento de redes neurais mais eficientes e flexíveis, com maior número de conexões sinápticas. Dessa forma, mesmo diante da perda neuronal ou de alterações funcionais do cérebro, pessoas com alta reserva cognitiva, conseguem recrutar circuitos alternativos para compensar déficits, preservando por mais tempo suas habilidades cognitivas. Por exemplo, pesquisas têm mostrado que pessoas que mantêm uma vida social ativa, que leem regularmente, jogam jogos de estratégia ou aprendem novas habilidades têm uma redução do risco de desenvolver demência em comparação àquelas que têm um estilo de vida mais sedentário em termos cognitivos.

Para trabalhar a própria reserva cognitiva, se pode adotar diversas estratégias, aumentar o nível de escolaridade, embora benéfico, não é a única forma. Participar de atividades que estimulem o cérebro, como aprender um novo idioma, tocar um instrumento musical, resolver quebra-cabeças, ou simplesmente se envolver em conversas estimulantes com amigos e familiares, são práticas que podem contribuir para a construção da reserva cognitiva. Além disso, engajar-se em atividades físicas regulares também é fundamental, pois a saúde física está intimamente ligada à saúde cerebral.

Em suma, a teoria da reserva cognitiva nos lembra da importância de se manter ativo, tanto mentalmente quanto socialmente, ao longo da vida. Estímulos cognitivos constantes e um estilo de vida equilibrado podem não apenas melhorar a função cerebral, mas também oferecer uma proteção valiosa contra o declínio cognitivo relacionado à idade e a várias condições neurológicas.

Referência

Stern Y. Cognitive reserve in ageing and Alzheimer’s disease. Lancet Neurol. 2012 Nov;11(11):1006-12. doi: 10.1016/S1474-4422(12)70191-6. PMID: 23079557; PMCID: PMC3507991.