Autor: Sabrina Sasso Nobre
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A depressão é um dos quadros psicopatológicos mais prevalentes e incapacitantes na prática clínica, mas também um dos mais heterogêneos. Do ponto de vista epistemológico, é importante compreender que “depressão” não constitui uma entidade única, com marcador biológico específico e universalmente definido. Trata-se, antes, de uma síndrome clínica caracterizada por um conjunto de sinais e sintomas, definida de forma operacional por critérios diagnósticos estabelecidos no DSM e na CID. Essa forma de classificação é útil para a prática clínica e para a pesquisa, mas não elimina a heterogeneidade interna do fenômeno depressivo, nem sua variabilidade de apresentação entre indivíduos.

Historicamente, o que hoje chamamos de depressão foi descrito em diferentes tradições como “melancolia”, e ao longo do tempo as explicações passaram por modelos morais, psicodinâmicos, biológicos e biopsicossociais. Na psiquiatria e na neuropsicologia atuais, predomina uma compreensão multifatorial, na qual interagem fatores de vulnerabilidade genética, eventos estressores ambientais, disfunções em circuitos cerebrais relacionados à regulação emocional, padrões de processamento cognitivo negativo, além de fatores neuroendócrinos, inflamatórios e variáveis psicossociais, conforme descrito nos modelos contemporâneos de compreensão dos transtornos depressivos. Os principais tipos de depressão incluem:

Transtorno Depressivo Maior (TDM): É a apresentação mais conhecida. Caracteriza-se por um ou mais episódios de pelo menos duas semanas, com humor deprimido e/ou anedonia, associados a sintomas como alteração de sono e apetite, fadiga, culpa excessiva, lentificação ou agitação psicomotora, dificuldade de concentração e ideias de morte ou suicídio. Do ponto de vista clínico, é uma síndrome muito heterogênea, com perfis sintomáticos distintos entre pacientes.
Transtorno Depressivo Persistente: Corresponde a um humor deprimido crônico, presente na maior parte dos dias por pelo menos dois anos em adultos, com sintomas menos intensos que no episódio depressivo maior, porém mais duradouros e frequentemente associados a sofrimento prolongado e prejuízo funcional. A diferença central em relação ao TDM é a cronicidade. Em muitos casos, o quadro é percebido pelo paciente como “sempre fui assim”, o que pode atrasar a identificação clínica.
Depressão bipolar: Aqui é essencial a distinção diagnóstica, a depressão pode fazer parte do transtorno bipolar tipo I ou tipo II. Em geral, o episódio depressivo bipolar pode se parecer muito com o TDM, mas a presença atual ou pregressa de mania ou hipomania muda completamente a formulação diagnóstica e o manejo psicoterapêutico. Alguns elementos que aumentam a suspeita incluem: início mais precoce, histórico familiar de transtorno bipolar, episódios depressivos recorrentes,sintomas como hipersonia e aumento do apetite, piora com antidepressivos em alguns casos, labilidade afetiva e características mistas.
Depressão com características psicóticas: É um subtipo grave no qual o episódio depressivo vem acompanhado de delírios e/ou alucinações. Os conteúdos podem ser congruentes com o humor, como culpa extrema, sensação de ruína ou indignação excessiva. Esse quadro exige avaliação cuidadosa de risco e, em muitos casos, intervenção psiquiátrica urgente.
Depressão com características melancólicas: Não é um transtorno separado, mas um especificador. Costuma envolver anedonia importante, ausência de reatividade do humor, piora matinal, despertar precoce, lentificação psicomotora, perda de apetite e peso, culpa excessiva.
Depressão com características atípicas: Também é um especificador, não um transtorno autônomo. Diferencia-se do padrão melancólico por alteração do humor,aumento do apetite, hipersonia, sensação de peso nos membros, sensibilidade intensa à rejeição interpessoal.
Depressão periparto: Relaciona-se ao período da gestação e pós-parto. A literatura destaca que mudanças hormonais, privação de sono, estressores psicossociais e vulnerabilidade prévia aumentam o risco. A distinção clínica entre “baby blues”, depressão periparto e psicose puerperal é fundamental.
Transtorno disfórico pré-menstrual: É uma condição cíclica, associada à fase lútea do ciclo menstrual, com sintomas afetivos e somáticos clinicamente relevantes, que impactam funcionamento social e ocupacional.
Transtorno depressivo induzido por substâncias/medicamentos e depressão devida a outra condição médica: Nesses casos, o quadro depressivo está temporalmente associado ao uso de substâncias, abstinência ou a doenças clínicas. É essencial considerar causas como: hipotiroidismo; doença de Parkinson; acidente vascular cerebral; dor crônica; uso de álcool e outras substâncias; alguns medicamentos.

Os sintomas depressivos podem ser organizados em quatro grandes domínios.

Sintomas afetivos – humor triste ou irritável, anedonia, desesperança, sensação de vazio,culpa excessiva, baixa autoestima.

Sintomas cognitivos – dificuldade de concentração, dificuldade para tomar decisão,lentificação do pensamento, ruminação, viés negativo na interpretação de eventos, memória subjetivamente pior, pensamentos de morte.

Sintomas somáticos – alteração de apetite e peso, fadiga, perda de energia, redução da libido, dores, queixas gastrointestinais.

Sintomas comportamentais – retraimento social, redução da iniciativa, diminuição da produtividade, sensibilidade aumentada, lentificação psicomotora ou agitação,comportamento de esquiva.

Do ponto de vista neuropsicológico, os sintomas cognitivos são centrais e não apenas secundários. Há evidências consistentes de prejuízo no funcionamento da atenção, velocidade de processamento, memória de trabalho e funções executivas em parte significativa dos pacientes com depressão, inclusive em remissão parcial, o que impacta diretamente o funcionamento global e a qualidade de vida.

Esses déficits cognitivos dialogam com os critérios diagnósticos descritos no DSM, que incluem dificuldades de concentração e indecisão como manifestações relevantes dos transtornos depressivos. Nesse contexto, é importante considerar que os quadros depressivos não são homogêneos, sendo classificados em diferentes categorias. Assim, a compreensão da depressão exige uma abordagem que integre sintomas afetivos, cognitivos e funcionais, reconhecendo a diversidade de apresentações clínicas e a necessidade de avaliação individualizada.

 

Referência:

 

Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR). Porto Alegre: Artmed, 2023.