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O transtorno bipolar é um transtorno do humor caracterizado por oscilações patológicas entre estados de depressão e estados de elevação do humor, energia e atividade. Entre esses estados, a hipomania e a mania representam manifestações do polo expansivo do humor, mas não são equivalentes. Embora compartilhem características como aumento da energia, diminuição da necessidade de sono, aceleração do pensamento e maior impulsividade, diferem de forma importante em intensidade, duração, prejuízo funcional e presença de sintomas psicóticos.
A hipomania é um estado de elevação ou irritabilidade do humor menos grave do que a mania. De acordo com o DSM-5-TR, caracteriza-se por um período distinto de humor anormal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável, associado a um aumento de energia ou atividade, com duração mínima de 4 dias consecutivos, presente na maior parte do dia, quase todos os dias.
Durante esse período, a pessoa pode apresentar sintomas como: aumento de energia e produtividade, redução da necessidade de sono, maior sociabilidade, fala acelerada, pensamento mais rápido, aumento da autoconfiança ou grandiosidade, distraibilidade, aumento de atividades dirigidas a objetivos e envolvimento em atividades potencialmente arriscadas (impulsividade leve a moderada).
No entanto, na hipomania, em geral, não há prejuízo funcional grave. O funcionamento não está significativamente comprometido a ponto de causar prejuízo social ou ocupacional acentuado, não há sintomas psicóticos. Ainda assim, trata-se de uma mudança clara no funcionamento habitual do indivíduo, que pode ser observado por outras pessoas.
Muitas vezes, a hipomania pode ser percebida pela própria pessoa como um período “bom”, de maior rendimento, criatividade e disposição. Esse aspecto é clinicamente relevante, porque pode atrasar a busca por ajuda, já que o estado pode ser confundido com uma fase de alta produtividade ou bem-estar.
Do ponto de vista neurobiológico, a compreensão atual do transtorno bipolar e de seus estados expansivos é multifatorial. Não se trata de uma única causa, mas de uma interação entre predisposição genética, alterações neurobiológicas, fatores ambientais e mecanismos psicossociais.
Evidências sugerem desregulação em circuitos cerebrais responsáveis pela modulação da emoção, do impulso, da recompensa e do controle inibitório. Entre as principais estruturas envolvidas estão: o córtex pré-frontal, relacionado ao planejamento, julgamento e autorregulação; o sistema límbico, especialmente a amígdala, envolvida no processamento emocional; e o estriado ventral, associado aos circuitos de recompensa, motivação e busca por prazer.
Essa desregulação pode resultar em aumento da reatividade emocional e da busca por recompensa, combinado com redução da capacidade de inibição e julgamento crítico, o que ajuda a explicar os sintomas comportamentais observados tanto na hipomania quanto na mania.
Durante estados de mania ou hipomania, observa-se uma tendência a maior ativação de sistemas de recompensa, menor freio inibitório do córtex pré-frontal, aumento de reatividade emocional, redução da capacidade de avaliar consequências.
Em termos neuropsicológicos, isso ajuda a explicar por que a pessoa se sente mais capaz, mais rápida e mais confiante, mas também mais impulsiva, menos crítica e mais vulnerável a decisões precipitadas.
A pergunta “por que ocorre?” precisa ser respondida com cautela, porque o transtorno bipolar não tem uma causa única. O modelo mais aceito é o bio-psico-social, com forte contribuição da genética e da neurobiologia. Existe uma hipótese de herdabilidade elevada no transtorno bipolar. Isso significa que pessoas com familiares de primeiro grau afetados têm maior probabilidade de desenvolver o transtorno. Ainda assim, genética não equivale a destino. O que se herda é uma vulnerabilidade, não uma certeza.
Eventos estressantes podem atuar como gatilhos em pessoas vulneráveis: privação de sono, mudanças bruscas na rotina, uso de substâncias psicoativas, conflitos interpessoais, estresse ocupacional, puerpério, alterações de fuso horário e desorganização do ritmo circadiano.
O ritmo circadiano e o sono ocupam um papel central no transtorno bipolar. Há uma forte associação entre o transtorno e a desregulação dos ritmos biológicos, especialmente no ciclo sono-vigília. A privação de sono, por exemplo, não é apenas um sintoma, mas também um possível gatilho para episódios de hipomania ou mania.
Diante disso, a avaliação longitudinal torna-se fundamental. Um único episódio isolado não é suficiente para definir o quadro clínico; é necessário compreender o padrão de funcionamento ao longo do tempo, identificando recorrência, intensidade e impacto dos episódios.
Hipomania e mania fazem parte do espectro expansivo do transtorno bipolar, mas se diferenciam principalmente pela gravidade, pelo grau de prejuízo funcional e pela presença ou ausência de sintomas psicóticos. Na hipomania, há maior funcionamento global e capacidade crítica. Já na mania, observa-se uma desorganização mais intensa, com prejuízos significativos nas esferas social, ocupacional e relacional, além de maior risco para a integridade psíquica do indivíduo.
Do ponto de vista neurobiológico, esses estados resultam de uma interação complexa entre fatores genéticos, alterações em neurotransmissores, disfunções nos circuitos frontolímbicos, desregulação dos ritmos circadianos e respostas ao estresse. Em termos clínicos e neuropsicológicos, compreender essas diferenças é essencial para o diagnóstico precoce, o manejo adequado e a prevenção de complicações ao longo do curso do transtorno.
REFERÊNCIA
American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed., text rev.; DSM-5-TR). American Psychiatric Publishing.
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