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No filme Garota, Interrompida (1999), a personagem Susanna apresenta dificuldades relacionadas à instabilidade emocional, impulsividade e relações intensas, aspectos que podem ser relacionados à compreensão da raiva e da desregulação emocional no transtorno de personalidade borderline.
A raiva no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) é uma emoção normal, mas pode apresentar maior intensidade e dificuldade de regulação devido à interação entre vulnerabilidades emocionais e alterações neurocognitivas. A literatura destaca principalmente a hipersensibilidade do sistema límbico, com hiperatividade da amígdala diante de estímulos emocionalmente ameaçadores, e uma menor capacidade de controle pré-frontal, dificultando a modulação dessas respostas. Assim, situações como rejeição, abandono percebido, críticas ou frustrações podem ser interpretadas como ameaças à integridade psicológica. Esse processo pode ser intensificado pela autoimagem negativa frequentemente presente no TPB e pela necessidade de validação externa, fazendo com que experiências de rejeição ou abandono sejam vivenciadas de maneira particularmente ameaçadora e desencadeiem respostas intensas de raiva.
Indivíduos com TPB possuem uma sensibilidade emocional muito maior do que a média. Eles reagem a estímulos que outros considerariam neutros ou levemente negativos como se fossem ameaças catastróficas. Quando essa vulnerabilidade é confrontada por percepções de rejeição, a raiva funciona como um mecanismo de defesa defensivo e desadaptativo para tentar restaurar a segurança ou punir o “agressor” imaginado.
Pacientes acometidos pelo transtorno frequentemente apresentam dificuldades na capacidade de inferir corretamente as intenções, estados mentais e emoções dos outros. Em situações de estresse, ocorre um viés de interpretação hostil, o paciente tende a interpretar ambiguidades ou comportamentos neutros de terceiros como ataques intencionais. A raiva intensa surge, portanto, como uma reação a uma “ameaça” que, na realidade, muitas vezes é uma má interpretação do estado mental do outro.
A raiva também está ligada à difusão de identidade (falha em integrar conceitos bons e maus sobre si e sobre os outros). Quando o paciente se sente “mau” ou fracassado, ele projeta essa percepção no ambiente. A raiva, nesse sentido, serve para separar o “eu” (vítima) do “outro” (vilão), protegendo o eu de uma fragmentação diante de sentimentos de vergonha ou humilhação.
O consenso científico atual indica que a raiva nesse transtorno não deve ser compreendida como um ato de maldade ou manipulação, mas como uma manifestação de um sistema de processamento emocional hiper-reativo, associado a uma tendência a interpretar determinadas situações por meio de um filtro de ameaça, especialmente diante de experiências de rejeição, negligência ou abandono.
Nesse contexto, o paciente pode apresentar dificuldade significativa para controlar a intensidade da raiva, expressando-a de maneira inadequada por meio de irritabilidade intensa, sarcasmo, amargura, discussões ou falas agressivas, frequentemente direcionadas a pessoas emocionalmente significativas, como parceiros ou cuidadores. Após esses episódios, é comum que surjam sentimentos de vergonha e culpa, que podem reforçar crenças negativas sobre si mesmo, como a percepção de ser uma pessoa “má”. Para o psicólogo, compreender a raiva dessa forma é fundamental, pois direciona a intervenção não apenas para a contenção do comportamento explosivo, mas para os processos subjacentes, como a regulação emocional, o controle de impulsos, a modulação do humor e a reestruturação de interpretações cognitivas associadas à ameaça, rejeição e abandono.
REFERÊNCIAS:
MANUAL MSD. Transtorno de personalidade borderline. Manual MSD: versão para profissionais de saúde, 2026. Atualizado em jan. 2026. Disponível em: Manual MSD.
INSTITUTO DE PSIQUIATRIA DO PARANÁ. Transtorno de Personalidade Borderline e raiva: qual a relação? Instituto de Psiquiatria do Paraná. Disponível em: Instituto de Psiquiatria do Paraná.
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