Autor: Sabrina Sasso Nobre

A desnarrativa pode ser entendida como o enfraquecimento ou a ruptura da capacidade de organizar a experiência em forma de história. Se a narrativa dá sentido ao que vivemos, conectando passado, presente e futuro, a desnarrativa aparece quando essa continuidade se rompe, seja por traumas, deslocamentos, perdas, crises de identidade ou experiências que parecem difíceis de integrar em uma sequência coerente. Nesse sentido, a desnarrativa não significa apenas ausência de história, mas a dificuldade de transformar a experiência em enredo compreensível. Trata-se de um processo em que os acontecimentos deixam de ser simbolizados de maneira integrada, permanecendo como fragmentos pouco elaborados, muitas vezes carregados de afeto intenso ou confuso.

 No transtorno afetivo bipolar, por exemplo, esse processo pode ser intensificado pelas oscilações de humor, uma vez que episódios maníacos, hipomaníacos ou depressivos alteram a forma como a pessoa atribui sentido e significado aos eventos experimentados. Durante a mania, por exemplo, a narrativa pode se tornar grandiosa, acelerada e pouco ancorada na realidade, enquanto nos episódios depressivos tende a assumir um tom negativo, rígido e empobrecido. Essas mudanças dificultam a construção de uma história estável sobre si mesmo, gerando versões conflitantes da própria trajetória. Essa dinâmica pode implicar em prejuízos na memória, na atribuição de sentido e significado e na construção da autopercepção, dificultando o reconhecimento da continuidade em sua própria existência. A experiência vivida pode permanecer suspensa e ser narrada de forma incoerente.

Em muitos casos, a desnarrativa surge quando o sujeito já não consegue reconhecer a si mesmo na própria trajetória. O passado deixa de parecer estável, o presente se torna fragmentado e o futuro perde nitidez. Isso pode acontecer em situações de migração, luto, violência ou mudanças muito profundas. Quando a pessoa sente que sua história foi interrompida ou deixou de fazer sentido nos termos anteriores. Nesses momentos, a identidade deixa de se sustentar em uma narrativa contínua e passa a ser vivida de forma dispersa, fragmentada, memórias soltas e muitas vezes incoerentes. Essa vivência pode gerar sentimentos de estranhamento, despersonalização ou perda de pertencimento, como se o indivíduo estivesse desconectado de si mesmo e do próprio percurso.

A ausência de uma narrativa organizada pode dificultar a tomada de decisões, o planejamento do futuro e a regulação emocional, já que a pessoa não dispõe de uma história coerente que funcione como referência. Nesse cenário, o trabalho clínico frequentemente envolve a reconstrução narrativa, auxiliando o sujeito a integrar experiências, ressignificar eventos e recuperar o senso de continuidade e autopercepção.

A desnarrativa revela que a existência humana não é sempre linear ou perfeitamente coerente. Ela mostra que a identidade é construída e reconstruída continuamente, entre lembranças, perdas e reinvenções. Mais do que a ausência de sentido, a desnarrativa marca o momento em que o sentido precisa ser reconstruído. Isto é, refeito, repensado e reconectado.

REFERÊNCIAS

BRUNER, Jerome. A construção narrativa da realidade. Realidade mental, mundos possíveis. 2001.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (CID-11). Geneva: World Health Organization, 2019.