Autor: Sabrina Sasso Nobre

Em um mundo saturado de informação, o recurso escasso deixou de ser o conteúdo e passou a ser a capacidade humana de prestar atenção. A abundância de estímulos consome esse recurso, fazendo com que a atenção se torne um ativo disputado. Nesse contexto, a “economia da atenção” descreve um ambiente em que empresas competem não apenas por consumidores, mas por minutos, cliques, permanência na tela e disponibilidade cognitiva. Do ponto de vista técnico, essa disputa faz sentido porque a atenção humana é limitada. O cérebro não processa todos os estímulos de forma igual, mas seleciona, filtra e prioriza conforme relevância e custo.

A atenção, portanto, é um recurso finito que envolve processos como atenção concentrada, sustentada, seletiva, alternada, dividida e funcionamento executivo. Quando múltiplos estímulos competem simultaneamente por esse recurso, especialmente em ambientes digitais, ocorre fragmentação atencional, o que tende a reduzir o desempenho em tarefas complexas. Esse uso constante e dividido da atenção impacta diretamente a eficiência cognitiva e pode também afetar o funcionamento emocional, dificultando a regulação, o foco prolongado e o engajamento em atividades que exigem maior esforço mental.

A literatura experimental oferece evidências consistentes nesse sentido. Algumas investigações sugerem que pessoas com maior hábito de multitarefas apresentam pior desempenho em tarefas que exigem filtragem de distrações e alternância eficiente entre atividades. O ponto aqui não é dizer que toda habilidade multitarefa seja sempre prejudicial em qualquer contexto, isso seria simplista. Mas investigações apontam que dividir a atenção frequentemente pode estar associado a menor eficiência da regulação cognitiva. A interpretação causal deve ser cuidadosa, porque parte da literatura é correlacional, mas o resultado é compatível com a teoria, alternar atenção tem custo.

Receber notificações no celular, por exemplo, impõe custo atencional mesmo quando a pessoa não interage imediatamente com elas. Em outras palavras, o problema não é só olhar para o telefone, o simples fato de um sinal de interrupção aparecer já pode deslocar recursos mentais e reduzir a qualidade da atenção sustentada.

Na prática clínica, esse fenômeno pode ser associado a diferentes quadros psicopatológicos. Em indivíduos com transtorno de humor ou personalidade, por exemplo, já existe uma vulnerabilidade basal na regulação atencional e no controle inibitório. Ambientes digitais altamente estimulantes podem intensificar dificuldades de foco, impulsividade e busca por recompensas imediatas.

Em quadros de ansiedade, a economia da atenção também desempenha um papel relevante. A exposição constante a estímulos (notificações, mensagens, conteúdos variados) pode aumentar o estado de vigilância e dificultar o relaxamento atencional, contribuindo para sintomas como inquietação, dificuldade de concentração e sensação de sobrecarga mental. Além disso, a antecipação de interrupções pode manter o sistema cognitivo em estado de alerta.

No caso da depressão, a fragmentação da atenção pode impactar processos como memória, motivação e engajamento em atividades significativas. A dificuldade em sustentar foco em tarefas mais complexas ou que exigem esforço cognitivo pode reforçar padrões de evitação e baixa produtividade, alimentando crenças disfuncionais como “não consigo me concentrar” ou “não sou eficiente”.

Em síntese, a economia da atenção descreve um regime real de competição por um recurso cognitivo limitado. Evidências da psicologia e da neurociência cognitiva indicam que interrupções, notificações e multitarefa geram custos mensuráveis ao desempenho. No contexto da economia digital, esses custos são incorporados a modelos de negócio que valorizam engajamento e permanência, configurando um ambiente em que a atenção se torna um ativo disputado e cuja preservação depende não apenas de autocontrole, mas também de estratégias ambientais e institucionais.

Um elemento central nesse processo é o reforço intermitente, amplamente utilizado por plataformas digitais por meio de recompensas variáveis e imprevisíveis. Esse mecanismo, consistente com princípios da análise do comportamento, favorece padrões de uso persistente e, em alguns casos, desregulado. Associado a isso, a alternância frequente de atenção compromete a função executiva e a regulação cognitiva, com implicações clínicas relevantes, especialmente em intervenções que exigem foco sustentado, monitoramento de pensamentos e engajamento em tarefas terapêuticas.

Referências

Ophir, E., Nass, C., & Wagner, A. D. (2009). Cognitive control in media multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, 106(37), 15583–15587. https://doi.org/10.1073/pnas.0903620106

WORLD HEALTH ORGANIZATION. International classification of diseases for mortality and morbidity statistics (CID-11). Geneva: World Health Organization, 2019.